Por Maurício Nogueira
Menos de 15 minutos se passaram entre receber o chamado, decolar com o helicóptero, resgatar o órgão e entregar à equipe médica responsável pelo transplante.
"Não foi nada planejado, foi uma decolagem emergencial. A gente começou uma corrida contra o tempo. Era um pedido de uma equipe que transportava o órgão que estava na Avenida Brasil, presa no engarrafamento, e um cirurgião pedindo ajuda também que tinha um paciente sedado no centro cirúrgico aguardando aquele órgão", diz o coronel Adalberto Neiva, piloto da Superintendência de Operações Aéreas da Secretaria Estadual de Saúde.
Era uma manhã de sexta-feira quando motoristas e passageiros viram o helicóptero interromper o trânsito da principal via expressa do Rio de Janeiro, a Avenida Brasil, na Zona Norte da capital. A medida tinha uma justificativa importante: a trinta quilômetros dali, em Copacabana, na Zona Sul, um paciente esperava pelo transplante do fígado. Mas o engarrafamento na via expressa tornava a missão por terra completamente inviável.
Apesar de ter uma experiência de 28 anos em resgates e transportes no ar, o coronel Adalberto Neiva, piloto da Superintendência de Operações Aéreas da Secretaria Estadual de Saúde do Rio, contou que a operação foi atípica.
"O nosso helicóptero geralmente é acionado com três, quatro horas de antecedência. Então dá tempo de você planejar, ver a melhor rota, o local de pouso seguro. Naquele dia, não, teríamos que decolar, localizar aquele carro na Avenida Brasil, pousar e não seria nada fácil. Mas nós tínhamos, mais ou menos, um minuto e meio pra embarcar aquele órgão e seguir para o hospital. E cerca de dez minutos depois, conseguimos chegar com segurança. É muito gratificante ficar sabendo que o transplante foi bem sucedido, que aquele paciente está novamente com uma sobrevida melhor, que trouxe uma felicidade para uma família", relata.
Sempre que um órgão fica disponível para doação no Sistema Nacional de Transplantes, uma força-tarefa tem início para garantir que esse órgão chegue, em poucas horas, até o paciente.
No caso do coração, por exemplo, o intervalo ideal entre a confirmação da morte cerebral do doador e a realização do transplante, é de apenas quatro horas. Já no do fígado, é de 12 horas; enquanto o rim pode chegar a 18 horas.
Dependendo da localização, o órgão é levado até o paciente por via terrestre ou aérea. Mas também há casos de pacientes que precisam ser transportados às pressas até o hospital.
O policial rodoviário federal Kaio Simões é responsável pela coordenação de voos de helicóptero da PRF no Paraná. Em outubro do ano passado, ele recebeu o chamado para levar um paciente de 3 anos de Blumenau, em Santa Catarina, até o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, pois um rim esperava por ele.
A viagem durou 18 minutos, e o transplante foi um sucesso.
"Nesse dia, nós recebemos uma ligação com um colega num posto já em Santa Catarina, perguntando a possibilidade e a viabilidade de fazer um transporte de uma criança de três anos. E seria de extrema importância porque a rodovia estava fechada, toda a serra fechada e a família estava na fila para o recebimento dessa doação e foi acionada. Ela precisaria chegar urgente, então, nós fizemos uma análise das condições climáticas, que não eram favoráveis naquele momento, mas ainda era possível ser feito. Na minha opinião, é a melhor utilidade que você pode dar para um helicóptero. Você tem essa sensação de que você faz algo que realmente faz a diferença", conta.
Foi também uma viagem de helicóptero que trouxe um coração novo para Lucas Leal, de 28 anos. O consultor de TI nasceu com uma condição cardíaca rara, que o levou a várias cirurgias ainda quando criança. Em 2021, após pegar Covid-19, o caso se agravou e Lucas não conseguia nem mesmo ficar em pé. Ele esperou um transplante por nove meses.
"Os seis primeiros meses acabaram sendo bem tranquilos, mas depois comecei a ficar bastante ansioso pela expectativa de chegar logo o coração. O meu transplante foi realizado no dia 13 de janeiro de 2023. Naquele dia, eu já acordei desesperançoso, completamente exausto daquela situação toda. Eu já tinha sido avisado outras duas vezes, porque eles tinham um órgão que poderia talvez ser meu. Estava até conversando com meus pais, falando 'acho que eu vou desistir, vou assinar para sair do hospital'. Só que acabou que, nesse dia mesmo, uma outra médica falou que eu tinha que melhorar minha feição para me preparar para o transplante", diz.
Da janela do quarto onde estava internado, em São Paulo, Lucas via o heliponto do hospital, por onde chegavam órgãos para outros transplantes realizados na unidade. E foi lá que pousou o helicóptero trazendo o coração que ele recebeu, vindo de Minas Gerais.
"Eu estava em São Paulo, na capital, e o órgão veio de Juiz de Fora. Então, eles tiveram que ir de helicóptero lá buscar. E era engraçado porque o quarto que eu estava internado, da janela dele, dava para ver o heliponto. Então, eu ficava vendo o helicóptero sair, o helicóptero voltar, e esperando o dia que ia que chegaria o meu coração. Depois disso, eu já não lembro de mais nada. Acho que quando eu acordei, já era dia 15, no CTI. Mas pelo que meus pais falaram, a cirurgia rolou a madrugada inteira. E logo na primeira semana pós-transplante, eu já fui fazer uma biópsia para poder verificar a questão da rejeição. E aí, de cara, a minha rejeição foi zero. Desde então, tudo bem", comemora.
Toda a logística para realizar o transplante de órgãos só é possível caso familiares autorizem a doação depois da morte do parente. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de metade das famílias não concorda com a retirada dos órgãos.
Fila é grande
O resultado é que, só neste ano, mais de 47 mil pessoas estão na fila aguardando um órgão e sete mil conseguiram fazer um transplante. Quase 93% dos pacientes precisam de um rim, seguido por fígado e coração.
Para ser um doador, o paciente deve informar previamente seu desejo à família, que terá que dar a autorização após a constatação da morte cerebral.
Para Lucas, o transplante foi um recomeço, cheio de esperança.
"É um sentimento muito forte de gratidão, de alegria, de felicidade, porque foi realmente uma segunda chance de viver. E é graças à doação de órgãos que eu pude voltar para o trabalho, a ver meus amigos, que eu pude finalmente começar a fazer atividade física. Hoje em dia, eu faço boxe. E, assim como eu, outras pessoas podem ter essa segunda chance de viver". Com informações da CBN.